segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Longe do coracão selvagem...

Será que a Clarice Lispector de Perto do Coração Selvagem é hermética, ou sou eu quem ainda não estou pronto para ser iniciado no universo dos romances lispectorianos?

Já perdi as contas de quantas vezes reiniciei a leitura deste romance – já comprei outros três, mas não me atrevo a tentar a leitura destes – e não consigo passar do capitulo O banho. Leio e embora não consiga entender, as palavras ligam alguma coisa no meu interior desencadeando sentimentos que tampouco compreendo o porquê de o meu coração bater do jeito que bate, de os meus pulmões necessitarem de mais ar, como necessitam.

Talvez essa seja uma maneira de ler Clarice, apenas deixar que as palavras despertem sentimentos, mesmo que não se esteja sabendo onde a trama vai dar. É como se o que acabei de ler não tivesse como encontrar uma ligação com o que há de conhecido dentro de mim, e ao mesmo tempo ficasse de uma forma incompreensível ligada à outra parte de mim, ao inconsciente, talvez até ao instintivo. Sinto como se cada frase revelasse menos de um por cento do que queria realmente dizer e apenas com um esforço muito grande – ou uma maturidade intelectual ou sentimental superior – fosse possível alcançar o mistério profundo que cada parágrafo de Clarice comunica. Às vezes sinto-me feliz por entender uma frase no início ou no meio do parágrafo, mas o conjunto sempre me deixa a sensação de que algo escapou, geralmente mais do que o necessário à compreensão do texto. Quando chego ao fim de um capítulo, parece que não o li, de tanto que me sinto incapaz de dizer ou ao menos pensar o que ele continha.

Esta tem sido a minha angústia ao ler a Clarice versão romance, porque com os contos eu me dei muito bem.

E aí, o que cês acham?