quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Slow life

Você já ouviu falar do movimento slow?

Se a resposta for não, aconselho ler uma matéria da revista Época do dia 05/01/2009, que fala sobre uma suposta (palavra da moda) nova tendência à prática da vida simples influenciada pelo aquecimento global e pela crise (econômica) mundial.

Mas enquanto você não vai ao site da Época ou emprestar a revista do seu vizinho para procurar a matéria, permita-me falar um pouquinho sobre a minha visão do movimento slow.

Todo mundo já deve ter lido vários textos falando sobre a nossa correria moderna, que não deixa tempo de conviver com os familiares, amigos, cachorro, papagaio, vizinho, de ter lazer digno, de ler aquele livro que está há meses pegando poeira na estante, entre outras coisas que esses textos explanam bem, cada um com sua devida carga de dramaticidade ou sabedoria. No entanto, poucas pessoas param de fato para valorizar as pequenas coisas do dia-a-dia: um pôr-do-sol, um sorriso, um abraço amigo (quantas nem tem o costume de abraçar!).

O movimento slow (devagar em inglês) busca justamente isso: diminuir a nossa correria e achar espaço para essas outras coisinhas que temos deixado em segundo lugar. A matéria da revista cita o slow food (criado em contraposição ao fast food, aqueles estabelecimentos em que a gente chega e a comida já está pronta) e o slow travel (tipo de viagem em que a pessoa passa mais tempo em um só local para conhecer a sua cultura mais profundamente que em uma passada rápida apenas para tirar fotos). Para resumir tudo, eu proponho o slow life, ou seja, uma vida menos corrida em todos os sentidos.

Impossível para quem leu O Pequeno Príncipe não fazer uma associação com os trechos “você só possui aquilo que cativou” e “Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez dela única no mundo”. Os valores da sociedade contemporânea relacionados ao tempo não mudaram tanto em relação à década de 40, período em que o livro foi escrito. Ainda hoje, talvez mais que antes, mede-se a qualidade de vida de um indivíduo pela sua renda ou capacidade de consumo. O mundo ainda não acordou para a mensagem do princepezinho e procura continuar a máxima de que “tempo é dinheiro”, mentalidade na qual a realização pessoal passa necessariamente por galgar um cargo que garanta uma farta conta bancária, casarão, carrão, viagens e coisas do tipo. Entretanto, alguns filhos seriam muito mais felizes jogando futebol com seu pai no fundo do quintal com uma bola de leite, que ganhando muitos brinquedos caros. Faça uma pesquisa entre as mulheres sobre o que elas preferem: um buquê de rosas lindo e caríssimo, ou um buquê com flores colhidas (até roubadas do quintal dos vizinhos) e montado pelas próprias mãos do amado? Quem discorda que uma noite de namoro à luz da lua pode valer mais que dez jantares em restaurantes chiques? Ou que algumas horas de conversa jogada fora com os amigos são mais relaxantes que um dia de compras nos shoppings da vida? Alguma coisa em comum entre as situações expressas nesses exemplos?

Pois é. Não é necessário tanto dinheiro para ter qualidade de vida, satisfação ou, no meu vocabulário, ser feliz. É preciso perder tempo com coisas que não trazem retorno financeiro ou sucesso profissional (nos moldes da sociedade moderna), mas recebem um valor afetivo inestimável para nós, quando aprendemos a ver com o coração.

Então, meus amigos, que tal reduzir um pouco a marcha da sua vida e perder um pouquinho de tempo cativando pessoas e dando às coisas esse valor subjetivo, medido pela lembrança feliz que carrega?

Que tal começar já hoje a pisar a grama com os pés descalços, a ouvir a voz do vento, observar a passagem das nuvens deixando a imaginação criar histórias com os formatos que enxergar nelas, ligar para aquele amigo, aquela amiga que há tempos você não vê para colocar as conversas e a amizade em dia, prestar atenção nos detalhes dos lugares por onde passa correndo e não percebe as mudanças... que tal?

Reduza a marcha meu amigo, minha amiga, e seja bem vindo à slow life!