terça-feira, 24 de novembro de 2009

TV x Contador de Histórias

No início do conto O Adeus do navegante, de Milton Hatoum, o velho navegante chega de viagem e manda desligarem a televisão para contar um causo. A história que ele conta é sobre um duelo, mas o conto de Hatoum é sobre outro duelo: o do título deste post. Ela se passa num tempo em que a televisão ainda causava fascínio por ser novidade e privilégio de poucos, mas a imagem do homem que chega e manda desligar a televisão para que o ouçam causa maior fascínio ainda, pelo menos em mim.


Ao ler sobre como as famílias se reuniam para ouvir a leitura de um romance ou para alguém contar histórias, sinto uma imensa vontade de ter vivido nessa época. Quando imagino uma cena como a do patriarca no conto de Hatoum sinto que há nela uma atmosfera mágica, as palavras saindo da boca e a imaginação dos ouvintes aguçada tentando visualizar o que está sendo contado.


Lembro que na infância, quando faltava energia elétrica, meu avô Amaral contava algumas de suas histórias: de suas pescarias, suas traquinagens dos tempos de criança, entre outras. Lembro de viajar nessas histórias, de visualizá-lo, por exemplo, deitado na rede à beira do rio e com medo da onça; quase podia escutar os ruídos da selva à noite, o som do rio em correnteza, das folhas das árvores roçando umas nas outras. Muitas pessoas não entendem, mas até hoje conservo o hábito de olhar para um ponto qualquer no horizonte e tentar visualizar a situação quando alguém me conta uma história qualquer; pensam que eu não estou prestando atenção.

Infelizmente o espaço reservado aos contadores de histórias hoje em dia vem (muito) depois da internet e da televisão, tecnologias que geralmente não deixam muito espaço para a imaginação.

Por isso, meus amigos, hoje eu lhes faço uma proposta: sempre que encontrarem um bom contador de histórias, desligue a TV, o computador, o Ipod, etc. e poste-se à frente dele com os ouvidos atentos e a imaginação à mil. Ou melhor ainda: torne-se você mesmo um contador de histórias.


Afinal, todo mundo traz na bagagem boas histórias para contar.