quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Sobre uma menina, alemães e judeus

Durante as férias andei lendo algumas coisas e resolvi falar um pouquinho aqui sobre dois que a maioria já deve ter lido, mas eu resolvi ler só agora: A menina que roubava livros e Quando Nietzsche chorou. Coincidentemente os dois livros tem alemães e judeus, embora só o primeiro tenha uma menina, daí o título do post (risos).

Vamos aos comentários:

A menina que roubava livros

Confesso que na primeira vez que tentei ler não passei da 20ª página. Achei muito estranha e fragmentada aquela narração da dona Morte. Passaram-se anos e depois de alguns amigos comentarem bastante o livro resolvi ler novamente e com calma, e então tudo fez sentido; cheguei a sentir saudades do livro e ficar pensando nos personagens quando não estava lendo.

Há um equilíbrio ali entre o ódio, a crueldade, a miséria, o irracional e a beleza, o amor, a solidariedade, a amizade. Aliás, é a poesia que vence durante todo o livro. Na música do acordeonista, nos livros do lutador judeu, nos presentes de Liesel, na amizade dela com Rudy. Os personagens são miseráveis vestidos de farrapos que sentem fome e sofrem opressão do regime, mas o que a gente sente não é pena deles, é outra coisa. Eles vivem apesar disso e amam, e se divertem e a vida parece ser boa.
Ainda bem que a Dona Morte resolveu nos contar essa história


Quando Nietzsche Chorou

De modo geral eu gostei batsante do livro mas me decepcionei com o final.
A trama armada pra aproximar Breuer e Nietzsche é engenhosa, mas verossímil.
Os diálogos vão se tornando interessantes e instigantes num crescente que só é quebrado com o último, o que deveria ser o cume mas acaba sendo uma solução fácil (a hipnose) que parece holywoodiana, como no filme Click.

Unir a psicanálise - ou a busca do autoconhecimento - à filosofia de Nietzsche é uma tentativa amibiciosa e não posso opinar quanto a isso, posto que não conheço tanto de ambos. No entanto falando de temas universais como assumir as rédeas da própria vida e a busca da liberdade apesar das imposições sociais, o livro oferece uma boa reflexão até, volto a frisar, o último diálogo.

Fiquei mesmo decepcionado com aquela solução do autor de usar a hipnose para o Breuer experimentar o que ele pensava ser a sua "liberdade". Assim ele não precisou assumir as consequências da sua escolha e o livro perdeu a intensidade dos diálogos anteriores. Depois disso o autor quer fazer a gente acreditar que Breuer "voltou" pra vida de antes e assumiu as rédeas da própria vida apenas porque agora escolheu conscientemente o que antes apenas havia aceito como imposição da sociedade e do pai.

Fica a pergunta: escolher conscientemente aceitar as imposições sociais faz alguém ser livre? O personagem fica num posição bastante cômoda e eu fiquei com a impressão de os diálogos anteriores com Nietzsche não serviram muito pra Breuer. Foi como abrir os olhos, ou sair da caverna - para usar a metáfora platônica - e resolver voltar a ver apenas sombras.