quarta-feira, 13 de julho de 2011

Além do que se vê


 Mas se eu lhe disser quem sou, você pode não gostar de quem sou, e isso é tudo o que tenho.” (John Powel)
 “Só se vê bem com o coração; o essencial é invisível aos olhos.” (Antoine de Saint-Exupéry)

Eu dou asas a minha imaginação desde que me entendo por gente. Na minha infância, não fizeram falta os videogames; se pudesse voltar atrás, escolheria novamente meus bonequinhos e as histórias que criava com eles. Quer coisa mais versátil? Eles tanto poderiam ser personagens de uma história de aventura, de guerra, como de uma partida de futebol. Já na adolescência, fui um rapazote tímido, introvertido, e minha companhia continuava sendo, em boa parte do tempo, as histórias criadas pela minha mente. Só nelas eu tinha coragem de falar com as menininhas de quem gostava, ou me vingar dos moleques que me enchiam a paciência. Não raro, sou mal compreendido pelas pessoas enquanto converso, pois quando ouço uma história qualquer, tenho o hábito de olhar um ponto fixo sem ver, já que minha mente está recriando a história com o máximo de detalhes possível. Pensam que eu não estou prestando a devida atenção, quando ocorre justamente o contrário: talvez não haja tantas pessoas por aí que se esforcem como eu para entender meus interlocutores.

Por essa minha característica particular, aprendi desde cedo a dar importância ao que não é perceptível à primeira vista. Essa minha mania de imaginar historinhas, de simular situações, me ajudou bastante na hora de tentar me colocar no lugar das pessoas quando isso se fez necessário, para entender - ou ao menos tentar - as motivações dos meus amigos e pessoas próximas para serem e agirem de determinada maneira. Creio ser essa a condição básica para pessoas, e consequentemente uma sociedade, mais tolerante e menos preconceituosa: olhar além da casca, dos rótulos, do superficial, para enxergar o interior, aquilo que faz da pessoa um ser humano como eu, você e as pessoas que amamos (pois geralmente tendemos a ser mais compreensíveis e tolerantes com quem amamos).

Dito isso, fica fácil entender a minha gratidão especial por dois livros lidos durante a adolescência, que ainda hoje influenciam e muito meu jeito de ver a vida: Por que tenho medo de lhe dizer quem sou?, de John Powel, e O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupery.  Mesmo antes de saboreá-los eu já dava muita importância ao implícito, às entrelinhas, mas eles completaram lacunas e me ajudaram a organizar o que já pensava e sentia a respeito. O primeiro provavelmente vai afastar aqueles que não curtem os livros de autoajuda já pelo título. Eu sei porque hoje também sou um deles, então sou grato por ele ter surgido na minha vida ainda na adolescência, quando eu ainda não era tão seletivo assim. O título reflete bem o conteúdo do livro: serve para entendermos como nos escondemos por trás de diversas máscaras e personagens para machucar-nos o mínimo possível com as agruras dos relacionamentos pessoais e, de posse desse conhecimento, trabalhar para minorar as consequências ruins de se mostrar muito pouco ou nunca. Por conseguinte, passamos a ser mais tolerantes com as pessoas ao nosso redor. Sobre o segundo, O Pequeno Príncipe, preciso mesmo falar alguma coisa? Um dos livros mais lidos da história (a frase acima do texto deve ser uma das mais citadas nos sites de relacionamento),  fala de como nossa relação com o mundo e com as pessoas está muito mais baseada em sentimentos e valores implícitos – invisíveis ao os olhos, mas não ao coração. São comoventes o relacionamento do principezinho com a sua rosa, o encontro com a raposa, a amizade com o piloto.

Caras pessoas, eu sei que é um sonho distante, uma utopia, imaginar um mundo onde ao menos a maioria da população dê mais importância ao essencial, ao poético, ao que nos torna mais humanos gerando atitudes de solidariedade ao invés da busca desenfreada e a qualquer custo do prazer e satisfação pessoais; entretanto, acredito que, se a transformação da sociedade como um todo terá a duração de gerações e mais gerações, não é motivo para desanimar e buscar construir ao menos em pequena escala esse mundo ideal. Por essa razão hoje escrevo sobre esse tema, para tentar fazer com que em mim não esmoreça essa forma de ver o mundo e, no mínimo, lembrar a cada um que leia e se identifique com isso, de que não é o único no mundo; se existe eu e você, é provável que existam muitos mais. É preciso criar essa corrente e mostrar a mais pessoas que esse é um mundo possível, seja através da leitura de livros como os acima citados, seja pela leitura de textos em blogs, ou ainda pela vivência disso no dia-a-dia (a melhor forma). Que tal?