segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sono estelar


A solidão inundou os aposentos da sua pequena casa com mais força que teria uma torrente de água vinda de alguma represa que tivesse ido abaixo. Por todos os cantos havia um quê de ausência e ele nem sabia de que. Quem sabe haveria jeito de substituir a ausência por alguma outra coisa; bastava saber que coisa era aquela que tanto faltava. E o que faltava?

Ainda há pouco os amigos estavam aí e eles jogavam baralho, conversavam sobre futebol, mulheres, contavam piadas, causos, pareciam tão alegres, tão animados, tão divertidos! Agora todos estavam em suas casas, alguns com suas mulheres e filhos, outros com os pais, mas ele estava ali, com os seus móveis, a televisão e a geladeira ainda com algumas latinhas de cerveja bem gelada. E aquela ausência descabida de sabe-se lá o que.

Por mais que já houvesse se acostumado a senti-lo, aquele vazio era atordoante como uma febre surgida do nada, sem dar pistas da sua causa, e essa em especial, era de deixar acamado. Fosse ao hospital, talvez recebesse um atestado de virose: - Sintomas: solidão seguida de carência aguda com tendência a falta de perspectivas e ausência de esperanças ou presença de esperança vaga em níveis insuficientes para dar sabor a uma vida.

Hoje não tem mais jeito, pensa - é ligar a TV num programa qualquer e esperar o sono vir, para ver se o sol do amanhã traria com ele algo como um Sazon pra alma.

Toma a última cerveja, dá uma olhada pela janela, o céu da madrugada está nublado, apenas uma estrela brilha ao longe num pequeno vão entre as nuvens, brilha só, fosca, mas ainda brilha e de repente ele se olha e sente que algo dentro de si brilha e é seduzido pela estrela, ou é ele que a seduz, não sabe bem, e sente o lado de dentro se encher, talvez desse brilho – esperança? paz? felicidade? amor? – algo que preenche apenas, sem dar respostas nem satisfação, apenas sentimento em seu estado puro e sem julgamentos.

Seus olhos estiveram vidrados por um tempo que não saberia determinar e agora vertem lágrimas solitárias em cada lado da face, sem dor e sem alegria, uma lágrima nascida desse encontro entre olhar e luz, estrela e ser humano, numa gravidade criada e descriada no momento que se passou.

Os olhos assim lavados, sente que o dia de hoje já se bastou; deita no sofá e entrega seu sono ao brilho da estrela que o banha através da janela ainda aberta. Entregue aos sonhos, nem percebe aquela estrela, depois de cumprido o seu papel, entregar-se também ao sono estelar, sumindo na imensidão do universo.