segunda-feira, 28 de maio de 2012

Um dia comum


Era um dia comum e Paulo voltava para casa depois de mais uma jornada de trabalho. Quarta-feira, 18h30min, início da noite. Nada mais comum que a volta para casa numa quarta-feira sem grandes acontecimentos.
Paulo procurava na memória algum fato marcante, uma imagem, um diálogo, qualquer coisa que pudesse fazer daquela quarta-feira comum um dia diferente. Nem bom, nem ruim; diferente já bastava. Sabia que quando chegasse em casa, sua esposa estaria lhe esperando com um belo sorriso e com aqueles seus braços acolhedores. Sabia também que entre a sua chegada e a hora de dormir, ela lhe contaria as histórias do seu dia e lhe perguntaria o que aconteceu no dele. E ela sempre tinha histórias para contar; algum novo conhecido, alguma discussão, alguma coisa que viu na rua. Já ele muitas vezes se saia da obrigação de ter algo interessante para contar dizendo que teve um dia comum, nada de novo. No fundo, gostava da idéia de ter alguém para quem contar o seu dia. No fundo. Mas Paulo não era homem de deixar as coisas do fundo aflorarem no contato com as pessoas. Nem ao menos para a sua esposa, mesmo que a tivesse por ela um amor verdadeiro. Paulo era mesmo um homem do raso. Olhar-se a fundo ou observar o lado de fora a fundo era coisa que exigia muito esforço. As coisas do raso são bem eficazes se bem utilizadas. Com um pouco de timidez e silêncio proposital conseguia até se passar por profundo. Mas, no fundo, sabia que não o era.
O ônibus avançava pelas ruas, o tempo contando no relógio, pessoas passando, o povo de sempre ouvindo pagode e forró no celular, o aperto do horário de pico, as discussões, gente que reclama, gente que empurra, gente que se esfrega. Nada do ônibus seria boa história pra contar a Ana, mas como queria conversar, dizer novidade! Repassava o dia mentalmente: cafezinho na copa conversando amenidades; e-mails lidos e respondidos; almoço solitário (ia almoçar antes ou depois de todo mundo, não gostava de conversas na hora de comer); uma olhadela de relance naquelas nádegas avantajadas da estagiária no corredor; piadinhas infames com os colegas, pra aliviar o estresse (era adepto do lema “a gente se fode, mas se diverte”); bons modos na despedida e a espera ansiosa pelo ônibus. Que dizer a Ana sobre esse dia? Nem parecia tê-lo vivido hoje, de tão manjado. Hoje, como ontem, como quarta passada, como as quartas do mês passado. Hoje poderia ter sido anos atrás e nem faria diferença, nem talvez fará amanhã ou quarta que vem. Quando foi que tudo ficou assim, tão monótono?
Paulo sentia agora o enorme vazio em que tinha transformado sua vida. E enquanto pensava nessas coisas, o ônibus se aproximou do seu ponto e já era hora de levantar. Então, mais uma vez, ele se resignou com a sua mesmice.
Desceu do ônibus e no caminho para casa, pensou que amanhã poderia tentar de novo, mas hoje não pensaria mais nisso. Pensar só tinha causado era aquele desconforto e agora do que ele precisava era banho, jantar, TV e descanso. Ouviria as histórias de Ana com aquele desconforto no peito, mas logo esqueceria o desconforto, as histórias, o dia.
Amanhã tudo seria diferente. Ou quem sabe na outra quarta-feira. Ou ano que vem...