domingo, 7 de abril de 2013

BEDA #3 - Em pleno século XXI


É sem dúvidas inadmissível que algumas coisas aconteçam ainda hoje, apesar de todo conhecimento acumulado acerca de nós mesmos e do mundo onde vivemos, o que, pelo menos em tese, deveria nos transformar em seres mais civilizados. Em vez disso, abominações como racismo, machismo, xenofobia, intolerância religiosa, enfim, toda essa variedade de discriminações e preconceitos ainda subsistem com força nesse início de século.

Eu estou de plano acordo com todos que esbravejam contra essas atrocidades, abismados que elas existam ainda hoje. Apesar disso, cansei de ver em fóruns e debates pela internet gente usando como argumento a expressão “em pleno século XXI”, como se estar “em pleno século XXI” fosse condição única para sermos os melhores seres humanos de toda história. Cansei mesmo. Porque não faz o menor sentido para quem tem um mínimo de conhecimento de história.

Esse discurso deriva, acredito, de uma interpretação equivocada da teoria da evolução de Darwin, segundo a qual tudo segue num progresso contínuo, da forma mais bruta e primitiva para uma mais aperfeiçoada. Não é bem assim! Eu não sou biólogo e não entendo as especificidades da teoria da evolução, mas pelo pouco que li, entendo que pela seleção natural, os seres mais adaptados às condições ambientais em determinado período é que sobrevivem. Embora alguns possam desenvolver nesse processo algumas habilidades especiais de camuflagem ou de reserva de água e nutrientes, em alguns casos, o ser vivo pode sobreviver por ser o menor de sua espécie, ou o que mais resiste a doenças, por exemplo, mesmo sem ser necessariamente o maior e mais temido. Muita gente ignora, por exemplo, que o vira-latas é a raça canina mais evoluída, por assim dizer, já que sobrevive muito bem mesmo sem receber todos os cuidados que os seus parentes de pedigree que frequentam os petshops recebem.

Voltando ao tema do texto, depois desse longo desvio, quero deixar claro uma coisa: o simples fato de estarmos no século XXI não quer dizer nada a nosso respeito. Não quer dizer que porque chegamos aqui, com todo o conhecimento e cultura acumulados, somos ou deveríamos ser melhores que os nossos antepassados. Quem somos, faz parte de todo um processo histórico que nos trouxe até aqui, e ele não é composto de um progresso civilizatório linear e contínuo. Na verdade, é feito de muitos avanços e recuos, da alternância entre períodos de grande criatividade e períodos de trevas, momentos em que vence a liberdade e outros nos quais tiranos e ditadores dão as cartas. A história não é esse processo contínuo e inevitável rumo ao que consideramos mais humano. Só com muita luta por justiça e dignidade é que essas conquistas se realizam e são mantidas, pois nada é para sempre.

Então, ao invés de apenas esbravejar incrédulo contra algo que você não crê ainda existir “em pleno século XXI”, procure conhecer as causas e buscar soluções para esses problemas. Somente com este tipo de atitude é que se cria a possibilidade de ao fim do século XXI ou início do século XXII este lado negro da nossa existência – como os preconceitos de todos os tipos, ou a fome – seja transformado em algo mais humano. Senão, é possível que daqui a 100 anos ainda exista alguém dizendo sobre as mesmas coisas "em pleno século XXII!"...