segunda-feira, 15 de abril de 2013

Lar


Caminhávamos em distraído êxtase de paixão. Sem perceber, atravessávamos os séculos contemplando nossos olhares, anos-luz, distâncias intangíveis, buracos negros e o encontro do meu olhar com o teu era o combustível, o caminho e a própria viagem.

Lembro-me perfeitamente, embora às vezes duvide das minhas próprias lembranças, do dia em que nosso amor era tão forte, tão apaixonado e as nossas loucuras chegavam a grandes extremos. Enquanto caminhávamos a esmo – e era como se tudo fosse um grande jardim paradisíaco e nós os seus guardiões e principais habitantes – mergulhamos em um vulcão, você me puxando, eu fui sem hesitar, alcançamos o centro da Terra, incólumes por não saber do perigo de ser queimados, ou pela temperatura da nossa paixão estar acima da que fazia por lá. Éramos loucos, apaixonados loucos, redundância, eu sei, mas é para dar a noção mais próxima do que era o nosso amor. Sim, era. Foi. Já não é. Uma pena. Grande pena.

***

Agora há pouco li uma lista dos lugares do universo que os astrônomos consideram possivelmente habitáveis. Passamos por alguns deles em nossa louca viagem. Sinceramente não gostei de nenhum deles. Aliás, hoje, nada é habitável. Nada. Meu único lar foram os teus dois pequenos olhos que já não posso mais habitar. Fora deles, nada é habitável.