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Gabo, piolhos e cuecas furadas

Quando estava iniciando meu blog, lá no UOL ainda, reli a primeira vez Memórias de minhas putas tristes e tive a ideia de um post. Republico agora, para fazer as vezes de despedida.

Vá com Deus, Gabo!

Segunda-feira, 17 de Outubro de 2005

Pessoas,

Estou lendo “Memórias de Minhas Putas Tristes”, de Gabriel Garcia Márquez. Quer dizer, estou re-lendo, pois da primeira leitura gostei tanto que cheguei com demasiada pressa ao final da história  deixando de recolher os tesouros escondidos nas entrelinhas, nas orações que passam muitas vezes despercebidas caso não sejamos leitores atentos. E foi assim que logo na página 12 encontrei o primeiro, um excelente tema para uma boa reflexão, motivo pelo qual senti a obrigação de fazer uma pausa na leitura.

Ao descrever seu personagem principal, Garcia Márquez conta uma historinha que ouviu quando criança, daquelas que os adultos contam com a intenção de ensinar algo às crianças e que servem mais é para assombrar-lhes a mente: “se uma pessoa morre, os piolhos incubados no couro cabeludo escapam apavorados pelos travesseiros, para a vergonha da família.” E conclui: ” Isso me impressionou tanto que tosei o coco para ir à escola, e até hoje lavo os escassos fiapos que me restam com sabão medicinal de cinza de ervas milagrosas. Quer dizer, me digo agora, que desde muito menino tive mais bem formado o sentido de pudor social que o da morte.”
  
Lendo esta história, lembrei de uma minha que tem algo a ver com o assunto. Quando era menor possuía poucas peças de roupa e, às vezes saia de casa vestindo cuecas ou meias furadas. Em algumas dessas vezes ficava imaginando o que aconteceria se sofresse um acidente grave: quem fosse me socorrer veria a minha cueca furada e eu me sentia humilhado só de pensar na possibilidade.

Inicialmente pareceu-me ridícula, engraçada a atitude do personagem e a minha também, mas ambas revelam  algo muito sério que poucos de nós percebemos: nossos olhos estão mirando muitas vezes aquilo que não é mais importante em nome do pudor social. E nem sempre é culpa nossa. Nós aprendemos a ser assim, através de nossos educadores (família, escola, programas de televisão...).

O personagem principal do livro não soube o que era o amor até os noventa anos de idade. E nós, será que sabemos? Será que não estamos mirando nossos olhares na direção errada, mais preocupados com os piolhos do que com a morte, com o trabalho do que com os amigos, etc., etc. etc.?

Tudo isso me faz lembrar do pequeno Príncipe e o seu segredo, presente recebido da amiga raposa. “Só se vê bem com o coração; o essencial é invisível aos olhos”.O personagem começa a descobrir o amor aos noventa e percebe que pouquíssimo - para não dizer nada – do que fez em sua vida valeu à pena.

Pode ser que muitos de nós não tenhamos tanto tempo... 

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