quarta-feira, 8 de abril de 2015

Do meu desejo de entender - BEDA - 7º dia

Desde que me entendo por gente tenho um grande desejo de entender. Aí vocês me perguntam – e com razão – o que, Carlos?

Tudo. Tudo? Sim, tudo! Tudinho de tudão? Isso mesmo, tudinho de tudão!

Não sei se isso se dá com todo mundo em algum nível, mas comigo sempre aconteceu de ficar me perguntando sobre a vida, sua origem, o porquê de estar aqui, para onde vamos. Em outras palavras: Quem sou? De onde vim? Onde estou? Para onde vou? As mesmas perguntas que continuarão sendo feitas enquanto existir um ser humano pensante na face da Terra.

Lembro-me de na adolescência algumas vezes pensar no que era o mundo antes da criação divina. Eu tinha aprendido desde a infância que Deus tinha criado o mundo em 7 dias, mas não me contentava com isso. Quem era Deus? O que existia antes de Ele resolver criar o mundo? O Nada? O que e como era o Nada? E ficava tentando imaginar como seria o Nada absoluto de antes da criação. Alguém já fez esse exercício? Eu tentava imaginar o Nada como se fosse uma transparência infinita. Porque por algo transparente você vê o que há além dele. Imaginava algo como o ar, mas sem o horizonte ou o céu para se ver além. Não preciso dizer que nunca consegui.

Tentei também fazer a experiência de imaginar o nada com o branco absoluto. Esse era menos complexo e por vezes consegui imaginar tudo branco, sem chão nem céu, sem paredes, só o branco por todo lado. Mas só de imaginar já sabia que não estava no nada, pois sentia meu corpo flutuando na branquidão leitosa e infinita. Lembro de ter  me sonhado dessa forma, flutuando no branco.

Se as duas formas de tentar imaginar o Nada antes de tudo existir tinham algo em comum era que eu entrava em parafuso; sempre chegava um momento que sentia como se fosse evaporar, me desintegrar ou algo do tipo; acabava deixando minha curiosidade sobre o que havia antes de lado e pedindo a Deus que aumentasse a minha fé.

E isso aconteceu sistematicamente com outros questionamentos que ia me fazendo. Ia me perguntando sobre algo, propunha respostas possíveis e acabava fazendo novas perguntas para as novas respostas que me levavam a outras possíveis repostas e outras perguntas sobre elas. Até que em algum momento eu cansava e me perdia no meio disso tudo. Eu acabava desistindo, pois achava que de alguma forma aquilo era uma espécie de pecado, e também porque imaginava que tudo teria sempre uma resposta certa e ela estaria em algum lugar, como acontecia com os livros didáticos do professor, que tinham as respostas para todas as perguntas dos livros dos alunos, ou como acontecia na igreja, onde aprendi que todas as respostas se encontravam na bíblia. Minha maior ambição era encontrar o gabarito da vida. Eu não tinha consciência de que estava começando a filosofar e acabei sufocando o filósofo nato dentro de mim.

Nessa curiosidade e nessa sanha de tudo compreender, a palavra tornou-se de uma importância sem tamanho para mim. Acreditava que tudo poderia ser explicado se fossem encontradas as palavras corretas. E para encontrar as palavras corretas era preciso conhecer o significado de cada uma delas. Foi na adolescência que comecei a escrever, tentando explicar e organizar a confusão que experimentava por dentro. Fé, religião, sentimentos, desejos, mudanças físicas e de percepção do mundo, de um tudo eu ia escrevendo em forma de versos livres que tenho tanta pena de ter perdido!

Hoje eu sei que, como escrevi em um poema anos atrás, as palavras são caminhos de se perder. Elas explicam sempre de maneira precária e diversas vezes temos que ficar misturando as ideias, usando metáforas e outras figuras de linguagem para dar apenas uma ideia aproximada do que sentimos,  ou do que aprendemos da natureza por meio da observação.

Também aprendi que não existe uma resposta única para cada questão que um ser humano seja capaz de colocar – sempre haverá posições divergentes e de alguma forma justificáveis. Nem mesmo a bíblia (não me odeiem, cristãos!) consegue se manter coerente e dar uma resposta única para todos os nossos problemas. (Aliás, tem uma resposta única que é proposta na bíblia por Jesus na qual eu acredito muito e na qual ponho toda a fé e esperança: o maior mandamento é o do amor. Como na música dos Beatles, acredito firmemente que All we need is love!)

Quem sabe de agora em diante eu consiga enfrentar minhas questões abandonadas sem resposta há um bom tempo atrás. O certo é que continuo querendo entender de tudo, embora tenha humildade para saber que entendo muito pouco sobre poucas coisas. E, se me acovardei por algum tempo pelo medo da grandiosidade da tarefa que é procurar as respostas que deem sentido à existência para me defender da angústia e até do sofrimento que esta busca causa, que eu tenha agora a grande coragem de enfrentar as dúvidas com a força de um guerreiro valente.


Que minha curiosidade sobre o Tudo possa me levar a conhecê-lo tanto quanto possa.