quarta-feira, 15 de abril de 2015

“Há tantos caminhos, tantas portas, mas somente um tem coração”

Seguir um caminho próprio, um caminho que só eu posso seguir porque só eu sei o que vai aqui dentro. Se você já leu a citação de Nietcszhe aqui ao lado, sabe quanto o tema me é caro. Também já postei aqui o texto da Clarice Se eu fosse eu, que acho absolutamente incrível. Vezes sem conta na vida me peguei pensando no que eu faria se eu fosse eu. E aí eu entro em contradição, porque também tomei como uma das verdades da vida que somos sempre o melhor que podemos ser em cada momento.  Mas se é assim, posso me perguntar como seria se eu fosse eu?

É sem dúvida um problema complexo, e se torna ainda mais quando pensamos que o que somos é também uma colcha de retalhos das pessoas que nos ajudaram a formar a nossa personalidade. Eu sou aqueles que amo e, em certa medida, aqueles que detesto, porque esses também me ajudam a delimitar quem eu quero ser quando me mostram quem não quero ser. Dito de outro modo, eu assumo para minha vida o que vejo de melhor nas pessoas que amo ou admiro, das coisas que leio, das crenças que adotei e evito, ou pelo menos procuro evitar, ser aquilo que detesto, desaprovo. E assim procuro ser o melhor que posso ser.

Por outro lado, não sou sempre quem eu quero ser e não escolho sempre ser de uma determinada forma: muito do que somos já vem pré-moldado pela sociedade na qual nascemos. Desse modo, ser o melhor que posso ser pode significar adotar o que a sociedade e a cultura na qual estou inserido acha que é o melhor pra mim – e frequentemente o é. Mesmo que, no fundo, eu queira ser outra coisa totalmente diversa.

Apesar de tudo, tô com o Raul e acredito que há uma forma de sermos nós mesmos, seguir esse caminho único que é só nosso e por onde iremos com todo o nosso coração. É quando não nos deixamos levar pela onda e procuramos encarar nossas verdades e nossos demônios interiores para diferenciar aquilo em que acreditamos de fato das vezes em que apenas aderimos sem convicção a ideias alheias. E aí tomamos a coragem de seguir aquele caminho que será só nosso, com a nossa marca e o nosso sangue demarcando o percurso.

Em O Vermelho e o Negro, Stendhal diz numa passagem que “(...)uma das características do caráter é não deixar o pensamento demorar-se nos sulcos traçados pelo comum”.  Seja por onde for, nosso caminho passa por não demorar-se nos sulcos traçados pelo comum, pois, como diz o Raul em outro trecho de Pedro, “cada um de nós é um universo”, com capacidade para achar novas soluções e novas formas de encarar a vida que poderão inspirar nossos entes próximos e quem sabe até as gerações futuras.

Ser quem somos é o nosso maior desafio na vida. E você tem, coragem de encará-lo?

*O título é um trecho da música Pedro, do Raul Seixas