quarta-feira, 22 de abril de 2015

Saio de mim *


Saio de mim e começo a me observar:
Olho para todos os detalhes
E não sei o que pensar

Olho para o passado e
Ah! Sim! Lá estou eu
O menino amável que a todos conquista
Correndo sem camisa no meio da rua
Que nada conhecia para além da sua vista
Que não fazia esforços para agradar ninguém
A quem ninguém queria mal
Se aproximar, também, ninguém
Mas para ele não tinha importância
Na verdade ele nem percebia
Cercados de seus bonecos
Eram sua única companhia
Além dos livros, lápis, borracha...

O que não conhecia, imaginava
E na imaginação
Seus bonecos eram personagens
De um jogo de futebol
Ou de uma grande aventura
Tudo era muito bom e muito bonito
A música sempre encontrou vida nele

Um dia ele viu os outros
Jogando bola de verdade
E ele quis jogar bola também
Ele começou a ver os outros
A observar seu comportamento
Não queria mais ser o que era
E começou a mudar, e mudar
E começou a crescer, e crescer
Mas não gostou muito da mudança

E começou a querer agradar a outros
Mas era tudo diferente
Agradava a outros, mas não a si próprio
Percebeu tudo: tudo foi se tornando claro aos seus olhos
Não os da cara; os do coração

Mas que pena! Já era tarde
Tentou voltar, mas não conseguiu
Aprendeu, envelheceu muito e em poucos anos
Era criança por um lado,
e pensava como gente grande, de outro
Tentou acordar os outros
Mas pouco conseguiu
Tentou ajudá-los
E o que recebeu em troca?
Tanto tentou que um dia cansou
E esqueceu de tudo que aprendera
E não quis mais saber de nada
Se acomodou e fez como os outros
Se encaixou na realidade deles
E apenas aceitou a tudo
Sem questionar e refletir
Como era seu costume fazer
Sua alegria se escondeu
Sua força foi embora
Sua imaginação foi afetada
Não consegue mais sonhar
Não consegue se achar
Está perdido, quase louco
Não quer saber mais de nada
Só quer um pouco de paz e sossego
Aproveitar as horas que passam
Que não lhe falam mais ao coração
E as pessoas que vêm e que vão
Já não fazem diferença
Desconfia de todos
E ao mesmo tempo precisa confiar
Quer confiar, mas não consegue
Já não tem domínio de si
Está, em boa parte, dominado
Sente-se infeliz, incapaz
Não consegue buscar forças
Para se reerguer
Está abatido, apático
Sente-se vazio por dentro
Mas pensa que um dia vai se reerguer
Que vai estar cheio, preenchido
De alegria, amor e de felicidade

Feliz daquele que disse:
"A esperança é a última que morre"
Pois ela ainda está no coração do menino
E vai reconstruir a vida
Vai  tirá-lo das ruínas
Em que ele conseguiu cair
Porque ele ainda é jovem
E, se Deus quiser,
Ainda vai viver muito
E vai superar tudo isso
E vai lembrar-se com orgulho
Da sua vitória


Coragem, menino!
"A vida é longa para você
 desistir no primeiro obstáculo"
Força! Ânimo!
Volto pra mim contente
Pois descobri algo muito importante
Descobri não, relembrei
"A esperança é a última que morre"
E é nela que vou me apoiar
Para me reencontrar
Encontrar meu lugar
Para depois pensar em ser feliz

(tentativa de poema-desabafo da época dos meus 16 anos)