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Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo...

 Se o mundo é mesmo
 Parecido com o que vejo
 Prefiro acreditar
 No mundo do meu jeito



Esse trecho de Eu era um lobisomem juvenil, da Leigião Urbana, foi durante muito tempo minha frase preferida. Como vocês podem ver no meu post anterior, o meu despertar para o mundo ao passar da infância para a adolescência foi um choque profundo nas crenças que tinha como verdadeiras e universais, os princípios e valores cristãos que minha família havia me ensinado desde a mais tenra idade.

Acreditava profundamente no amor e no bem e, na minha inocência, acreditava que o bem era a regra e o mal era um desvio, a exceção. Como Rousseau, acreditava que os homens nasciam bons e eram corrompidos pela sociedade - pelo "mundo", usando o vocabulário cristão. Quando eu comecei a ver que não era bem assim que a banda tocava, eu me vi perdido e sem direção, sem saber como fazer para conciliar a minha crença com o que via na realidade. 

Eu era naquela época uma pessoa muito mais empática ainda do que sou hoje e sofria com o sofrimento das outras pessoas. Não conseguia entender como uma pessoa poderia ostentar sabendo que outras estavam morrendo de fome, sede e frio na África, no Nordeste brasilieiro, e onde mais houvesse miséria. Não conseguia entender porque as pessoas poderiam ser grossas e estúpidas gratuitamente, quando pra mim parecia tão natural querer fazer as pessoas ao meu redor se sentirem bem. Quando digo isso, não falo querendo me exaltar, é porque eu acreditava que era assim que deveria ser, natural para todos os homens, não apenas pra mim. Mas não era. 

Já na igreja mesmo, nas Campanhas da Fraternidade e no mês das missões, quando a gente ia de casa em casa fazer novenas, rezar, ler a bíblia, eu me deparei tantas vezes com realidades tristes, de gente doente e idosa abandonada à própria sorte; mãe de família com uma penca de filhos morando em barracos de chão batido, sem divisão, privada de quase tudo, inclusive de alimento; famílias que sofriam com parentes alcoólatras ou dependentes químicos, que imploravam pra que orássemos por eles, para que tomassem outro rumo na vida; e tantos outros casos mais que vi durante os vários anos que participei da igreja. Esses impressionaram mais porque estavam ali, no mesmo bairro, a algumas quadras de casa, não na África, não na Ásia, mas bem perto, perto demais de mim. Isso me abalou muito, muito mesmo.

E na igreja eu havia aprendido que a Palavra de Deus era transformadora, que o Reino dos Céus tal como Jesus pregou deveria começar aqui neste mundo. Então, eu sempre pensava em como poderia fazer para transformar essa realidade triste que ora eu experimentava. Porém, ao mesmo tempo que pensava em como transformar essa realidade, fazia vista grossa para o que estava acontecendo para não sofrer tanto, pois achava naquele momento, como a maioria de nós acha, que não poderia fazer muita coisa para mudar aquelas situações de imediato e precisava seguir em frente sem sofrer junto.  

No fundo, a gente acaba fazendo como o Renato escreveu e acreditando no mundo do nosso jeito particular. E o meu mundo era aquele da igreja e da família, em que todo mundo se dava bem e se abraçava e, apesar de algumas desavenças que são naturais quando tem muita gente junta, quando era preciso, todo mundo se unia para ajudar alguém que estava precisando. Era nesse mundo que eu queria acreditar, no mundo de pessoas que rezavam juntas, partilhavam experiências e procuravam de alguma forma fazer a diferença nesse mundo. E me colocava numa espécie de redoma, sem saber muito do que se passava fora disso.

Mas o mundo lá fora continua, segue sua marcha e uma hora ou outra eu acabaria esbarrando nele. Como na vez em que fui assaltado. Ou quando fui assaltado pela segunda vez. Ou quando via amigos de infância se perdendo no mundo das drogas e até do crime. Mesmo que em boa parte do tempo eu ligue os pontos e acredite no mundo do meu jeito, ele sempre dá um jeito de mostrar que minha percepção dele não corresponde fielmente à realidade. 

O que se faz, então? Creio que não há muito o que fazer. De uma forma ou de outra, acreditamos no mundo de um jeito nosso, particular, porque nossas crenças baseiam-se em nossas experiências. E nós temos uma necessidade danada de por uma ordem e dar um sentido a tudo, por isso estamos sempre ajustando nossa maneira de ver o mundo. Suponho que no máximo possamos tentar apurar a visão ao máximo para sair do estado de negação da realidade - ou de uma parcela desta - para enxergá-la de uma forma mais completa.

Enxergar de forma completa não significa aceitar. Creio que a atitude tem que ser transformadora mesmo - ver o todo, o que há de bom e de ruim, e transformar o mal com o que não concordo no bem que eu desejo. Com essa atitude, acreditar no mundo do meu jeito passa a significar: acreditar que posso fazer do mundo um lugar mais próximo do que desejo. E é assim que deve ser.


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