terça-feira, 7 de julho de 2015

Sobre o crescimento da intolerância no Brasil atual

Está rolando um vídeo na internet comparando a reação geral aos petistas ao que ocorria os judeus na Alemanha nazista. O argumento é de que, como a propaganda nazista culpava os judeus de todas as mazelas da Alemanha à época, faz-se hoje com o petismo no Brasil. A comparação talvez seja um pouco exagerada, mas não chega a ser absurda. É preciso ter pensamento crítico pra saber que a corrupção, infelizmente, não é propriedade de um único partido, e nem a honestidade. Não existe essa divisão artificial entre nós os bonzinhos e eles os maus que devem ser eliminados para que o bem vença. Quando colocamos as coisas dessa maneira a história nos ensina que costuma não terminar bem (mas quanto hoje se dá importância ao que a história ensina?).
Ao ver o nível de intolerância que toma conta das redes sociais hoje, e que muitas vezes se reflete fora dela, eu me lembro de um trecho do artigo "Uma guerra civil não é uma guerra, é uma doença", escrito por Antoine de Saint-Exupéry sobre a guerra civil espanhola. Dizia ele:
"Estes homens não vão ao ataque na embriaguez da conquista, mas, surdamente, estão lutando contra um contágio. E, no campo oposto, sem dúvida, se passará o mesmo. Nesta luta não se trata de escorraçar do território pátrio um inimigo, mas de curar uma doença. (...) E as pessoas, na rua, sentem-se rodeadas de pestíferos a quem não sabem reconhecer.
(...) A morte, aqui, é o lazareto do isolamento. Eliminam-se os portadores de germes. Os anarquistas fazem visitas domiciliares e carregam os contagiosos para suas carretas. E, do outro lado da barreira, Franco pôde pronunciar essas palavras atrozes: 'Aqui não existem mais comunistas!'.
(...) Sob a cal ou o petróleo queimam-se os mortos em campos de produção de estrume. Nenhum respeito pelo homem. Em cada partido, os movimentos de consciência são perseguidos como se tratasse de uma doença.".
É certo que não vivemos aqui uma experiência nazista ou uma guerra civil entre direita e esquerda. Mas é preciso ficar atento quando começa-se a ver pessoas querendo exterminar petistas porque são o "câncer" do Brasil, e também quando do outro lado só se consiga ver uma pessoa que não concorda com as pautas de esquerda como alguém possuído de ódio ou um inimigo que eu vou excluir do meu face e do meu círculo de amizades, porque aí fecham-se todas as possibilidades de diálogo. Passamos a ver o outro como não humano, ou como dizia Exupéry, como alguém possuído de uma peste, uma doença que devemos exterminar. Seguindo nessa pegada, se não de uma hora pra outra, pelo menos gradualmente esse momento pode chegar. 
Vai chegar? Não sei, mas é melhor procurar minar as condições que podem levar a ele. E aqui eu concordo com Exupéry, quando diz que um dos requisitos fundamentais para solucionar nossos impasses sem levar a grandes tragédias é reconhecer que do outro lado da discussão também existe um ser humano, tão digno de respeito à vida e à opinião quanto você. Talvez assim se consiga deixar a discordância ao campo das ideias e até ver um pouco de razão no que o coleguinha disse e, depois de terminada a discussão, ambos possam conversar sobre amenidades do dia-a-dia. Será que é querer demais?

Eis o vídeo: